Blog de Valcazaras
 

 

Desde Janeiro estou preparando para o segundo semestre uma releitura de “Fausto”.

A maioria dos atores não quer mais “processo”.... e o que sobra? Foi isso que me fez desistir de alguns projetos no primeiro semestre. Conversando com Antunes filho ele me disse: Luiz vai viajar, vai pra fora!!!!

 

Foi a palavra certa no momento certo, e em 3 dias resolvi tudo, no quinto estava ao “vento” e assim segui em viagem.....ele decidiria onde eu deveria ir....

 

Seguindo o fluxo ele me levou para Portugal, Barcelona, Roma! Vi muito, muito teatro, mas não posso deixar de falar da tecnologia de “Um Conto Americano” de David Mamet no Teatro Nacional D.Maria II, a encenação de Maria Emília Correia é fascinante, mas continuava a minha questão “o que sobra”?

 

Foi num monólogo de João Lagarto que comecei a puxar o fio. Em “Começar a Acabar” de Samuel Becktt a resposta começava a respirar.

 

Então fui procurar a companhia “CHAPITÓ”,  situada na Costa do Castelo em Lisboa, um espaço pluridisciplinar, completando 26 anos, onde se desenvolvem atividades em três áreas distintas: Ação Social, Formação e Cultura.  Com o propósito de comunicar um teatro dos sentidos, que sintetiza as várias artes, de provocação e compromisso com o presente. Desde sua formação em 96, produziu 25 criações originais, apresentando tanto em Portugal como na Europa, América do Sul, Médio e Extremo Oriente. Foi importante encontrar um teatro que não abre mão da sua condição de arte. Comecei novamente a encontrar parceiros e anseios... assim, o vento soprou pra Catalunia!

 

Em Barcelona encontrei Raquel Gomes, uma atriz que foi aluna em 1992. Raquel ainda mantinha viva as minhas aspirações e inspirações. Foi bom me rever através de seus olhos e lembranças. Com ela conheci Ferram um jornalista catalão que tem uma linda particularidade: herdou do pai uma biblioteca de três andares. Por aquelas salas me vi conectado com a história de um homem que dedicou a vida a amar livros... e conhecimento.

Não pude deixar de associar o trabalho sobre “Fausto” que venho desenvolvendo em São Paulo e busquei o que Fernando Pessoa escreveu. Ferram, também crítico de teatro, tinha sido ator em tempos remotos. Desse encontro, cafés e sangria... um projeto começou a nascer...e dirigi uma leitura no que poderá vir a ser um futuro espetáculo.

 

O vento não parou, soprando dos livros poeiras adormecidas para o porão gótico da grande Biblioteca da Catalunya. Diante de mim sobre a terra espalhada pelo chão vi uma “Antígona” dirigida por Oriol Brogui. Se esta era a resposta a minha questão, ou se a viagem tivesse como princípio alterar minha consciência para meu ofício... estava feito....poderia voltar, e o vento teria cumprido sua missão.

 

Mas ele não quis! Queria me mostrar algo mais...

 

Minha necessidade de acreditar numa arte de continuidade não saiu ileso ao deparar com a obra visionária de Gaudi, a natureza pulsando em projetos que ainda estão vivos.... em movimento crescente.

 

Agora o vento deslizava por frestas na historia, e como o hálito que sopra civilizações, me impulsionou para a “Cidade Eterna”.

 

Acordei em Roma, ciceroneado pelo artista plástico Fabrizio Dell´Arno. Agora a poeira se materializava em textura e seu ateliê foi transformado no meu quarto.

 

Entre vinhos, antepastos, sensibilidade e... raxixe,  passamos madrugadas... discorrendo sobre religiosidade e o humano  plasmado em suas telas.

 

Fontana de Trevi, Pantheon, Coliseu, Templo de Saturno, no Fórum Romano.

 

Eu não andava por ruas, monumentos, vielas... eu tocava com os pés a história. E meus simples olhos eram tocados pela amplitude da palavra “Beleza”.

 

Era Michelangelo me mostrando como o infinito pode se apresentar para nós, materializando sua máscara em formas estéticas.

 

Sentindo o místico poder das colunas salomonicas levadas para dentro da Basílica de San Pietro in Vaticano,de repente, a figura da morte flutuando sobre uma porta me fez parar por algum tempo, era a sala onde se fecha a força do clero, dali só se pode sair quando se nomeia o próximo Papa. Quanto tempo isso poderia durar?  Quais as discussões ali se estabelecem? Qual jogo de poder?  Estaria ali a ganância do “Senhor dos Anéis”? Segundo a máxima Sartreana o “Inferno” estaria dentro do Vaticano?. Se forem os outros, todos ali, estariam fechados “Entre Quatro Paredes”.

 

Era o vento novamente me chamando.... acabou o tempo! A releitura que fiz da peça de Sartre, foi escolhida para o Festival de Teatro de Londrina. Era hora de voltar.

 

Sigo o Fluxo! O fluxo do Vento!



Escrito por valcazaras às 01h25
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  O inferno segundo Sartre – Direção Luiz Valcazaras

 

 

"ENTÃO É ASSIM"

 

 

O espetáculo “Então é assim!”, em cartaz nos dias 13, 14 e 15 no FILO, tem como tema um inferno metafórico, a partir da visão do filósofo francês Jean-Paul Sartre.
A questão das relações humanas e o existencialismo, que permeiam toda a obra de Sartre e também estão presentes em uma de suas peças mais famosas _ “Entre quatro paredes” -, inspiraram o grupo londrinense Criando a Liberdade, dirigido por Luiz Valcazaras.

“Entre quatro paredes” é um texto dramatúrgico que aborda os conflitos e impasses das relações humanas e que originou a célebre frase: “O inferno são os outros”. A peça está ligada diretamente à corrente existencialista que, entre outros aspectos, afirma que o homem é autor de sua própria existência.

Com esse projeto o grupo recebeu, recentemente, patrocínio do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz (ligado ao Ministério da Cultura), além de ter o patrocínio do Promic – Programa Municipal de Incentivo à Cultura.

O cenário é um dos elementos mais impressionantes da montagem. Os atores andam sobre um “tapete” de cacos de vidro, sem poder dormir nem descansar. Nisto consiste um dos aspectos mais terríveis do inferno, onde todos permanecem presos às suas próprias culpas e emoções, numa metáfora do que se desenrola
nas consciências que abrigam o inferno de cada um.

Grupo londrinense, diretor paulistano

O grupo Criando a Liberdade existe desde 2004, quando começou a desenvolver projetos de criação teatral dentro da Penitenciária Estadual de Londrina - PEL - patrocinado pelo Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura). Com o espetáculo, “Então é assim!”, o grupo recebeu mais um patrocínio: o Prêmio Funarte de Teatro Myrian Muniz.
Na direção está o paulistano Luiz Valcazaras, convidado especialmente para essa adaptação de “Entre quatro paredes”.
Valcazaras tem em seu currículo a fundação do N.I.T.E. (Núcleo de Investigação Teatral) em São Paulo, desde 1997, que, hoje, também possui em Londrina uma extensão. Ele também fez o texto e a direção de “Anjo Duro” (Prêmio APCA de Melhor Atriz para Berta Zemel), além de ter dirigido “Dança lenta no local do crime” de Hanley; “Abre as asas sobre nós” (Prêmio Shell de 2006 de Melhor Texto para Sérgio Roveri); “Fando e Lis” de Arrabal (montado em Londrina pelo grupo Boca de Baco), e “Esvaziamento”, de Beatriz Gonçalves, em cartaz no Espaço Satyros, em São Paulo.

Exposição
e cenário


Na Casa de Cultura da UEL, após as apresentações, o público também poderá conhecer o cenário de perto e até mesmo experimentar objetos utilizados em cena, como as botas com as quais os atores andam sobre cacos de vidro. A idéia, segundo o grupo, é proporcionar ao público as mesmas sensações do elenco durante o espetáculo.

Ficha Técnica:

“Então é Assim!”
Direção: Luiz Valcazaras
Assistente de Direção: Edna Aguiar
Elenco: Ana Sardinha, Apollo Theodoro, Ed Sombrio e Letícia Ferreira
Iluminação/criação: Luiz Valcazaras
Trilha Sonora/criação: Emílio Carlos (Mizão) e Sassá
Cenografia: Luiz Valcazaras
Figurino: Luiz Valcazaras
Fotografia: Paulinha Berehulka
Contra-regra: Heuller de Almeida
Produção: O grupo
Realização: O grupo

Serviço:
Espetáculo: Então é Assim!
Companhia: Criando a Liberdade
Cidade: Londrina (PR)
Direção: Luiz Valcazaras
Dias: 13 e 14 de junho

 

 

 

           

   

 



Escrito por valcazaras às 00h53
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           Letras Em Cena                       

 entrevista com Luiz Valcazaras

 Grande Auditório do MASP

 

Por Clóvis Tôrres

Luiz Valcazaras é diretor teatral, dramaturgo e agitador cultural. Atualmente em cartaz no teatro Satyros II, com o espetáculo "Abre as Asas Sobre Nós" de Sérgio Roveri. Ano passado dirigiu "Dança Lenta no Local do Crime", indicação para o prêmio Shell de melhor ator. Escreveu e dirigiu "Anjo Duro", com Berta Zemel, prêmio APCA 2000. Fundou o N.I.Te. (Núcleo de investigação Teatral) em São Paulo e implantou uma extensão em Londrina/PR.

 

LUIZ VALCAZARAS: essencialmente um criador

Inquieto, sempre envolvido com projetos e sonhos, ele é um apaixonado pelo teatro: autor, diretor e agitador cultural, ele fala ao LETRAS EM CENA. Confira a entrevista e conheça um pouco mais deste criador.

Letras Em Cena: Quando você percebeu que seria diretor, um homem de teatro?

Luiz Valcazaras: Eu sempre digo que um bom ator tem que ter um equilíbrio entre prazer e responsabilidade, eu comecei trabalhando como ator, mas me cobrava tanto, que a responsabilidade era maior que o prazer. Ao dirigir, senti que estas duas forças se harmonizavam.

Letras: O que mais lhe agrada no trabalho artístico e o que mais lhe preocupa ou o deixa insatisfeito nesta profissão?

Luiz: Com esta pergunta, eu poderia discorrer muito sobre a linha conceitual, sobre o coletivo na criação ou sobre a característica social de nossa arte, mas indo direto ao ponto, o que me agrada é sala de ensaio. O que me preocupa é entrada do público e o que me deixa satisfeito é B.O. final.

Letras: Como você "escolhe" os trabalhos que dirige? Pelo tema, elenco, produção, idéia, ou tudo junto? (risos)

Luiz: Uma vez a Mariângela Alves de Lima escreveu que não deveríamos procurar "o que montar", mas sim o que a gente "quer dizer" e eu me pautei por isto por um bom tempo, depois me surgiu uma outra inquietação como diretor: Quando lia um texto eu pensava em "como" dizer. Ultimamente, quando me encanto com um artista, fico estudando todo um universo para contextualizar aquele iluminado dentro de um projeto que eu pudesse dirigir (risos).

Letras: Qual seu ponto de partida para escrever? A idéia? Imagem, mensagem? Qual é a inquietação?

Luiz: A alma. Na verdade, eu sempre escrevi por necessidade prática, ou seja, num processo de criação, nem sempre o dramaturgo podia acompanhar todas as etapas da investigação e como trabalho no sentido de estimular os "insights" dentro da sala de ensaio, acabava compondo a cena e determinando o texto.

Letras: Quais são seus dramaturgos preferidos, clássicos e contemporâneos?

Luiz: Eu não me considero um diretor fiel a "dramaturgos", eu sou essencialmente um criador, quanto mais liberdade de releitura tiver, melhor. Assim sendo, como perscrutar a alma do ser humano me é compulsivo, sempre re-visito os gregos, sonho com Shakespeare e me enclausuro com Beckett. Ultimamente me saboreei com Joyce, ao ser convidado para dirigir a leitura de "Exilados" no Letras em Cena. Além dos preferidos tem também "os queridos", que são companheiros de uma mesma viagem como Sérgio Roveri, Renata Mizrahi, Marcos Losnak, enfim.

Letras: Nos últimos tempos, a leitura dramática vem ganhando mais espaço. São projetos, ciclos, leituras espontâneas e informais, discussões, etc. Alguns dizem que isto é sinal dos tempos ("já que não temos dinheiro pra montar, lemos"). Outros acreditam que é um espaço enriquecedor de idéias, de incentivo a novos dramaturgos, de formação de platéias, etc. ("é bom para discutir as idéias e testar a dramaturgia"). Qual sua avaliação?

Luiz: Eu compactuo com a segunda versão, o lugar de texto dramatúrgico definitivamente não é a estante!

Letras: Qual o poder do teatro na sociedade atual?

Luiz: Olha, vou responder de um ponto de vista muito particular. Existe uma linha da psicologia que diz que a depressão não é um mal pessoal e sim um mal social, porque tudo converge para que o homem continue se afastando do seu imaginário. Desta forma, acho que o teatro tem um forte e vital poder, principalmente na vida metropolitana, de amalgamar o que está "separado" (esquiz(o)) do profundo da "alma" (frenia).

Letras: O público realmente está sumindo dos teatros, ou esta "crise" é apenas momentânea?

Luiz: Não acredito em "crise", acredito em segmentação, você pode fazer uma "espetaculização" de entretenimento como uma ritualização para iniciados, ou ainda, existem aqueles que montam roubadas homéricas para otários (tanto para público como para patrocinadores!).

Letras: Já utilizou a Lei Rouanet em algum trabalho?

Luiz: Sim, sem contar que para alguns editais ela é regra básica!

Letras: Que avaliação você faz do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo?

Luiz: Muita cautela é o que eu diria! Não podemos ser simplistas e retroceder em conquistas alcançadas, mas também temos que ter a coragem para não estancar os ouvidos para críticas de projetos fomentados, gerando amadurecimento e uma adequação dentro da nossa realidade, afinal, como dizia Rubens Corrêa, moramos num bizarro país sul-americano.

Letras: Se lhe fosse solicitada uma idéia sobre a elaboração de uma lei de incentivos fiscais para a cidade, o Estado ou o Brasil, o que diria?

Luiz: De uma maneira abrangente, eu analisaria melhor os projetos implantados e sua funcionalidade, me aconselharia com Luciano Bitencourt (Secretário de Cultura de Londrina) sobre a experiência do "fundo de cultura" que tem se mostrado uma forma eficiente para o tratamento de incentivos fiscais sem o risco de mercantilização do processo artístico!

De uma maneira particular (risos), eu criaria uma lei que estacionamentos que funcionassem dentro de um espaço de 150 metros do teatro, teriam que destinar uma porcentagem para a produção em cartaz, afinal de contas, às vezes, eles cobram quase o preço do ingresso e empregam apenas uma pessoa!

Letras: Você tem acompanhado ativamente a produção teatral de São Paulo nos últimos anos. Que análise faz do atual momento teatral na cidade?

Luiz: Vou contra a corrente dos reclamadores de plantão, eu acho um bom momento, temos oportunidade de assistir o Grupo Lume e Antunes ao mesmo tempo em que o Sesc trás de Russos a Brook. Temos musicais da Broadway (com o direito democrático da opção) a Cauby com Vilella.

Assim, peço que "Abram as Asas Sobre Nós" porque temos fantasticamente a efervescência da praça de Ivam Roosevelt...

com Rodolfos, Loureiros Marios Possolos.

Temos a encenação de Fofos e Johanas como há de Tolentinos Garolis Heineks Fonsecas.

Temos a Louca de Cortez, Florestas de Medeiros e Crimes de Aurélio

Como temos luzes sapiens de Fadeis Chapiras e Toscanos momentos.

Enfim... estou valcazarianamente feliz!

 

http://www.letrasemcena.art.br/entrevistas_luiz.asp



Escrito por valcazaras às 22h51
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