Blog de Valcazaras
  ...Sigo o Fluxo! O fluxo do Vento!

 

 

No aeroporto de Londrina a produção e os atores já me esperavam... problemas a vista! Fui levado direto para o teatro.

A concepção original da peça “Então é assim!”, uma releitura de “Entre quatro paredes” de Sartre, foi uma instalação dentro do Museu de Arte em que a cenografia, contendo 800 kg de cacos de vidro, dialogava com a arquitetura do museu. Era nessa instalação aberta ao público, que a noite, os atores encenavam, moendo com grossos coturnos cacos de vidro/memórias que não poderiam mais juntar-se. Houve problemas na adaptação para a Casa de Cultura e em 5 horas o espetáculo iria começar. Respirei fundo, mas em vez de preocupação um leve sorriso apareceu no canto da boca: eu estava de volta!!!!!! Orientando os técnicos, observei por entre o pano da rotunda os atores entrando para o aquecimento... Junto com aquele suor verteria um espetáculo cauteloso, que no outro dia se transformaria em “preciso”.

Belos atores carregados de uma vontade absurda, vivendo numa Londrina que pulsa teatro.



Escrito por valcazaras às 03h37
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  ENCONTRO ENCONTROS

 

Acordo?

Sei que o sol já entrava, na manhã fria, pelas cortinas entreabertas. Entre fusos, fragmentos de sono e resto de uma embriagada madrugada, desço pelo panorâmico elevador do hotel Bristol em busca de um café.

 

De repente fico parado no meio do salão, enquanto tudo ao meu redor parecia desfragmentar.

 

Sentado à mesa, ao lado da coluna... Um homem de teatro: Eugênio Barba.

 

Nitis Jacon me chamou e enquanto me apresentava como diretor paulista que desenvolvia um trabalho de grupo em Londrina... Minhas lembranças se dilatavam e foi buscar guardado no meio dos meus arquivos, uma pasta antiga com o elástico arrebentado. Ali estavam amarelados recortes de jornais, anotações de ilhas flutuantes, grifos no secreto manual do ator.

O homem que mudou naquele tempo meus paradigmas sobre o teatro estava ali, sorrindo com a mão estendida...

 

Corte/Câmera em movimento/dia

Trilha: Fusão/ música oriental, tcheca e dinamarquesa.

 

Cenas de vários encontros durante o festival:

Caminhando no calçadão com atores do Odin/ almoço no restaurante reservado para os grupos / dentro da van indo para o teatro/ na platéia de Andersen´s Dream/sentados na praça diante da concha acústica.

 

Áudio em português na voz de Eugênio Barba.

 

“Nosso trabalho é como um cavalo cego que corre como num precipício dentro de nós e nos impulsiona para frente. São as forças obscuras que vivem dentro de nós.”

 

Quando a gente encontra alguém que é aficionado por seu ofício e fala com propriedade de quem cria sua própria história, o ouvir passa a ter uma outra dimensão.

Barba, ainda jovem, saia da Itália achando que estava partindo para uma viagem de aventuras, mas em verdade estava sendo pelo destino, tragado por um dragão/baleia que o vomitaria mais tarde, entre vísceras de sapiência!

 

“ODIN” o lendário deus nórdico, senhor da magia, da guerra e dos mortos, foi o ritualístico nome escolhido para seu grupo, formado por pessoas que haviam sido recusadas pelas escolas teatrais.  Quem sabe seja este o espírito que faça, depois de anos, em que os estímulos já não são satisfatórios, voltarem ao “processo” para desaprender... para descontruir... criar e recriar uma nova dinâmica entre as relações, vivenciando 40 anos de sentidos, tatuando na carne a experiência de uma cultura teatral própria. Em constantes questionamentos, hoje se dão conta que estão submetidos no teatro às mesmas leis naturais da vida. Pode existir a continuidade do pensamento, podem surgir novos grupos e uma mesma necessidade... mas não será o ODIN, porque ele não é um edifício ou um método... é um GRUPO. Pessoas que se juntaram e decidiram viver a vida dessa maneira... O ODIN morre com seus atores.

 

A vibração destes significados ecoava na minha cabeça enquanto andava pelas ruas de Londrina. Ao chegar à praça, me deparo com um acontecimento ímpar, eu encontro: encontros!

 

A arte genuína vinha deslizando sobre o vento que soprava, esvoaçando cabelos de artistas, estudantes de teatro, mestres, transeuntes e pêlos de atentos cachorros de rua.

 

Em noturnas conversas e claros encontros, os Grupos: ODIN (Dinamarca), Farm in The Cave (República Tcheca), Shinjyuku Ryozampaku (Japão), resolveram trocar experiências com o cotidiano Londrinense, e em baixo da concha acústica sob pombas que voavam para pernoitar no parque, conceberam um happening. Tocavam e cantavam em festa, traziam os jovens a dançar sobre o palco, corriam para o público pulando pelos bancos sem perder a melodia. Com música alegria e dança, uniram três grupos, três mundos num encontro de inter-relação... Formando um quarto grupo/instante na cidade. Encontros que podem ser lidos como uma poesia efêmera, mas não se nega a profundidade absurda, que como as pinturas de areia feito nas montanhas tibetanas... Serão levadas pelo vento, mas nunca se apagarão da nossa memória.

 

 

Corte/flash-back/ interior/luz do dia

Trilha/tambores orientais, acordeões tchecos e dinamarqueses.

Hotel.

 

Sorrindo, de mão estendida... estava o senhor, que tempos atrás, mudou meus paradigmas sobre o teatro...

Estendo a minha e o cumprimento... Sem saber se o encontraria de novo.

O gosto do café forte me põe atento, estou firme. Minhas palavras de tornam precisas.

Encontro!  

 

Levanto para ser fotografado.

Neste dado momento a porta de vidro se abre. Olho para as mesas. Os guardanapos estão tremulando como se fossem bandeiras ou brancos pombos levantando vôo ou roupas estendidas em longos varais... ou prenunciando que era chegado o momento... pois o vento estava novamente... me chamando.



Escrito por valcazaras às 03h36
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