Blog de Valcazaras
  O GIGANTE E A BORBOLETA

 

 

Nos conhecemos ainda no aeroporto, era um Festival de Teatro na Colômbia. Lembro que naquela época eu usava “mochila” ele se aproximou com um pesado “jaco” verde.  Os grupos foram se encontrando para um café enquanto a produção vinha nos buscar.

Um dia escreverei somente sobre este festival, hoje é só o ponto de partida para contar uma história prometida!

Porém, não posso deixar de registrar os encontros nas “calles” com um litro de rum embrulhado em saquinho de mercado!

Eu completamente “borracho”!!!.

Mas foi mesmo em São Paulo que nossos caminhos viriam a se cruzar por diversos momentos. Dividimos muitos trabalhos profissionais e nos acompanhamos em vários momentos pessoais. Daqueles que eu vibrava fortemente para ele superar certas fases e em outras em que ele mostrava sua firmeza para que eu não sucumbisse!

Numas dessas abrimos um velho rum e brindamos lembranças das frias noites de Manizales.

Apesar de nem sempre concordarmos em todo ponto de vista, nunca deixei de admirar a eloqüência e a certeza de como ele defende suas idéias!

 

Mas, admiração mesmo, não posso negar, é por dois fortes motivos, além de tantos outros. Hoje se a Aline traz meu nome em sua assinatura é por ele ter defendido essa teoria e sobretudo por ter criado um espetáculo para que eu a conhecesse! Por isso vou ser eternamente grato!

 

Às vezes ficamos tempos sem nos ver, noutras nos encontramos com uma espantosa sincronicidade.

 

Depois de jogarmos uma espécie de “sudoku” com nossas agendas, conseguimos nos encontrar semana passada.

 

A força do salmão para subir correntezas transmutava nosso paladar regado a saquê.

 

Trocamos idéias, tocamos lembranças, perscrutarmos teatro.

Mas o que mais me tocou foram seus olhos, quando falou sobre um alucinógeno natural. Aquele que realmente faz a cabeça, expandindo a consciência de um homem: “a vida”, pulsando na sua frente, através do crescimento de Antônia, sua filha!

 

O lugar perdeu o ritual quando mesas ao lado resolveram se sentir num restaurante napolitano e através de incômodos ecos etílicos ele se levantou, se despediu com delicadeza e se foi. No outro dia me mandou um gentil e-mail, mas sem saber ele tinha praticado um dos gestos mais significativos de nossa trajetória!

 

Sob meu ponto de vista você se levanta de um jantar por dois motivos: primeiro para não matar alguém, segundo, como gesto de inteira confiança, porque sabe que é um verdadeiro amigo que está na sua frente!

 

Continuei ali sorvendo geladas cervejas e flanando pensamentos até aterrissar numa lembrança:

 

- Cheguei correndo para uma reunião. Ele abriu a porta do seu apartamento e aquela fortaleza de mais de um metro e oitenta, estava totalmente pálida, sem cor nos lábios, os olhos arregalados de terror! Ainda sussurrando me falou: Luiz me ajude!!!! E foi se afastando, petrificado enquanto sua mão apontava para janela.

Movimentos taquicárdicos desfibrilaram meu coração, num segundo tudo passou na minha cabeça: um suicídio na janela, um assalto à mão armada, a materialização de um exu babando sangue. Lentamente virei meus olhos para janela e vi, na minha frente, uma alva cortina escorrendo pela janela.

- Não tem nada ali!!!

E ele levantou sua mão trêmula - ali no meio da cortina!

Aqui não tem nada, só essa borboletinha, mas já voou pela janela.

- Era isso! E irritado emendou:

- Está rindo de quê?

Nada não! Mas prometo que um dia escrevo um conto e já tenho o título!

-Qual?

 

-“O Gigante e a borboleta” disse eu com cara de escárnio!

 



Escrito por valcazaras às 15h06
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